Cinzas. O odor da transpiração de todo o corpo, da jaqueta surrada, das mãos e de tudo mais. De repente, o ar das proximidades ficou tóxico e sufocante. Escravos das substâncias, inalam e sopram nuvens de venenos pelo raro ar puro que ainda insiste em sobreviver. Muitas vezes, a nuvem percorre na direção do próximo ser humano, possivelmente azarado e passivo, que está contra o curso do vento e recebe um banho de fumaça fétida. A vida passa pela janela e o ar do lado de fora parece ser menos pior. Para o vício, a saúde não deve ter muito valor, nem mesmo a higiene, nem mesmo a educação, pois são de sombras que seus pulmões respiram, de tabaco que emanam seu cheiro e de bitucas que as ruas são cobertas. Se algum prazer há em tal prática, que a vida me preserve apenas como sofredora dessa ação, sem nunca praticá-la.
sábado, 27 de abril de 2013
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Desiluzes
Envolvem-se em romances que não
viveram, mas gostariam de viver. Fantasiam a vida com a de personagens
fictícios e sorriem por, às vezes, se deliciarem com alguns fatos das bases de
uma história real. Exibem as capas e até lançam olhares para certificarem-se de
que mais de uma pessoa viu a obra que com apreço dedicavam leitura. Entre
fetiches e vampirices, a comparação com a realidade beira o esquisito e o rumo
da vida deságua em decepções, pois nem todas as vontades dependem de si próprio
para serem saciadas.
domingo, 9 de dezembro de 2012
Desabafo
Eu fui criado há quatro anos, quando
haviam muitos que já eram remunerados com isso. Nasci de uma vontade louca de
me comunicar, mostrar aos outros um pedacinho do mundo de uma forma singular,
tão simplória e ao mesmo tempo admirável. Notei que dois anos após a minha
criação, passei a ter meu próprio estilo, minha personalidade e um jeito todo
especial de ser. Fui elogiado por muitos e fiquei até um pouco popular entre os
companheiros mais próximos, que compartilhavam comigo uma linha de pensamento
semelhante. Gostei de parecer importante por uns tempos, mas ultimamente estive
um pouco sozinho, não recebi muitas visitas e até achei que pudesse ser
exterminado por tamanha rejeição. Entendo todos os motivos, contudo, gostaria
que minha maneira de se expressar não fosse deixada em um canto qualquer com a
perspectiva que cultivei ao longo desses últimos quatro anos de existência.
Apesar de ter iniciado meus registros há apenas dois anos, até encontrar meu
verdadeiro ideal, já esperava que logo mais voltaria para vivificar os plantios
de outrora cultivados nas sedentas terras dos respeitáveis blogueiros. Ass.
Nobres rabiscos. Singelas obras.
terça-feira, 31 de julho de 2012
Pudorasmo
O pecado bate na porta de quem foge dele, a perseguição nasce de uma
ferrenha negação, uma luta contra o ego, o querer interior, chamado também de
“falso livre arbítrio”. Há muito tempo o prazer foi confundido com transgressão
e muito se passou até que as pessoas descobrissem, não só o caminho da
felicidade, mas a felicidade plena. Finalmente a alienação caiu por terra e se
tornou do conhecimento de homens e mulheres que ambos podem satisfazer os
desejos carnais sem deixar máculas em seu histórico de vida, ou mesmo viver o
melindre de um arrependimento efêmero. Feliz 31 de julho, o Dia Mundial do
Orgasmo! Prazer e júbilo para todos!
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Ig, ig, urra!
A ignorância é
tão interessante quando não está associada a comportamentos como a rudeza,
grosseria, estupidez e boçalidade. Ela chama muita atenção quando conectada a
falta de saber e de conhecimento, pois apenas reforça uma característica resistente
de quem não se interessa por novas informações e se limita ao cabresto das
teimosias reprimidas. Forçadamente controla a raiva que deixa transparecer
vermelha na face pálida e desnutrida, apesar do elevado tamanho, o que faz da
ignorância ser o que é, trazendo todos os rudes comportamentos à tona. Em
determinado momento chega a merecer certa compaixão pela voz exaltada e balbúrdia
psicológica, porém, a maldade intencional quase sempre corrompe o sentimento de
misericórdia. Aquela raiva de outrem agora é sua com maior vigor e levianamente
se apodera de um novo portador.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Selvageria concentrada
O mundo mudou.
Ele está realmente assustador e muitas das coisas são amedrontadoras, inclusive
saber que o número de pessoas é muito maior. As terras estão gritando, os
animais se refugiam, mas não podem combater contra a brutal e avassaladora
força do homem e seus pesados artefatos. Tocas foram soterradas, ninhos estão
caídos, cavernas exploradas desabrigam inofensivos morcegos, peixes estão
sedentos e o pasto já não doa alimento necessário para famílias de quadrúpedes.
A fauna e a flora se despedem num canto tristonho e temem não mais ganhar
liberdade para governar a natureza. Poucos lutam pelos interesses do bem comum,
pela preservação desses incríveis seres que até hoje nos concederam o sustento
e nos alegram cada dia com a sua beleza e majestade ímpar que só a
originalidade poderia oferecer. Um nó paira na garganta ao ver que muitos
desses seres são conduzidos pelo instinto. Reféns dos seus invejáveis faros,
cobiçada audição e contemplada visão mesmo na escuridão, caem no engano e atrás
das grades de uma infame gaiola. Mentes estressadas, a liberdade se faz nula
nas garras do medo e da dor que sentem ao sair de seus habitats não mais
naturais. A superioridade humana está a uma distância pouco longe da ruína e da
morte.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Nota do tempo de um voo contido
O cálice das verdades interiores
molhou sua garganta e amargou toda sua boca. Com os olhos fechados seu corpo
derretia no calor e caía aos pedaços. As narinas cada vez mais irritadas não
suportavam a entrada de tanto ar. Mãos e costas encolhidas e um choro
inconsolável tomaram o seu ser. Os dentes doloridos já não faziam mais parte
daquela boca e as pernas estavam submersas na intensa frieza das águas. Seu
ninho era frio e lhe fazia tremer toda a carne, inexplicavelmente já perdera
todos os sentidos humanos, passando a escutar como aves e se perturbar com todo
e qualquer ruído que chegasse aos seus sensíveis ouvidos. Suas penas ainda
pequenas estavam molhadas e uma breve crise de riso se estampou no rosto. Já
estava na hora de amargar a boca novamente quando seu estômago esquentou e num
movimento abrupto veio a necessidade de expelir o vômito da cura. Sua vontade
era de voar, mas algo prendia suas asas nos pensamentos racionais que lhe
vinham negar a experiência da mutação. Ao impedir sua força interior entrou em
transe e passou a ter densas visões de animais e insetos que nunca havia visto
na vida racional, todos os que passavam por perto possuíam olhos, muitos olhos
a olhar a ave que não tinha descoberto a maravilhosa liberdade plena por meio
do voo. Outra vez sentiu o poder da cura e expeliu um viscoso vômito do pranto reprimido.
Precisou de ajuda para se libertar das garras do perigo em meio aos calafrios e
tremores de seu corpo, logo ouviu uma voz apaziguadora e solícita aos seus
suspiros temerosos. Essa mão auxiliadora foi ao seu encontro, despertando sua
alma do distante sono de embriaguez que aos poucos voltava para luz. Logo veio
a aurora boreal e pigmentos violetas despontaram por entre todos os irmãos.
Deitou-se e percebeu que seus sentidos humanos retornavam e muito tempo se passou
até que sentisse o habitual calor em suas pernas. Regressou de sua viagem e permaneceu
meditando no entorpecimento e em tudo o que havia acontecido por meio do cálice
de poder.
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