terça-feira, 31 de julho de 2012

Pudorasmo

         O pecado bate na porta de quem foge dele, a perseguição nasce de uma ferrenha negação, uma luta contra o ego, o querer interior, chamado também de “falso livre arbítrio”. Há muito tempo o prazer foi confundido com transgressão e muito se passou até que as pessoas descobrissem, não só o caminho da felicidade, mas a felicidade plena. Finalmente a alienação caiu por terra e se tornou do conhecimento de homens e mulheres que ambos podem satisfazer os desejos carnais sem deixar máculas em seu histórico de vida, ou mesmo viver o melindre de um arrependimento efêmero. Feliz 31 de julho, o Dia Mundial do Orgasmo! Prazer e júbilo para todos!

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Ig, ig, urra!


           A ignorância é tão interessante quando não está associada a comportamentos como a rudeza, grosseria, estupidez e boçalidade. Ela chama muita atenção quando conectada a falta de saber e de conhecimento, pois apenas reforça uma característica resistente de quem não se interessa por novas informações e se limita ao cabresto das teimosias reprimidas. Forçadamente controla a raiva que deixa transparecer vermelha na face pálida e desnutrida, apesar do elevado tamanho, o que faz da ignorância ser o que é, trazendo todos os rudes comportamentos à tona. Em determinado momento chega a merecer certa compaixão pela voz exaltada e balbúrdia psicológica, porém, a maldade intencional quase sempre corrompe o sentimento de misericórdia. Aquela raiva de outrem agora é sua com maior vigor e levianamente se apodera de um novo portador.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Selvageria concentrada


      O mundo mudou. Ele está realmente assustador e muitas das coisas são amedrontadoras, inclusive saber que o número de pessoas é muito maior. As terras estão gritando, os animais se refugiam, mas não podem combater contra a brutal e avassaladora força do homem e seus pesados artefatos. Tocas foram soterradas, ninhos estão caídos, cavernas exploradas desabrigam inofensivos morcegos, peixes estão sedentos e o pasto já não doa alimento necessário para famílias de quadrúpedes. A fauna e a flora se despedem num canto tristonho e temem não mais ganhar liberdade para governar a natureza. Poucos lutam pelos interesses do bem comum, pela preservação desses incríveis seres que até hoje nos concederam o sustento e nos alegram cada dia com a sua beleza e majestade ímpar que só a originalidade poderia oferecer. Um nó paira na garganta ao ver que muitos desses seres são conduzidos pelo instinto. Reféns dos seus invejáveis faros, cobiçada audição e contemplada visão mesmo na escuridão, caem no engano e atrás das grades de uma infame gaiola. Mentes estressadas, a liberdade se faz nula nas garras do medo e da dor que sentem ao sair de seus habitats não mais naturais. A superioridade humana está a uma distância pouco longe da ruína e da morte.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Nota do tempo de um voo contido


          O cálice das verdades interiores molhou sua garganta e amargou toda sua boca. Com os olhos fechados seu corpo derretia no calor e caía aos pedaços. As narinas cada vez mais irritadas não suportavam a entrada de tanto ar. Mãos e costas encolhidas e um choro inconsolável tomaram o seu ser. Os dentes doloridos já não faziam mais parte daquela boca e as pernas estavam submersas na intensa frieza das águas. Seu ninho era frio e lhe fazia tremer toda a carne, inexplicavelmente já perdera todos os sentidos humanos, passando a escutar como aves e se perturbar com todo e qualquer ruído que chegasse aos seus sensíveis ouvidos. Suas penas ainda pequenas estavam molhadas e uma breve crise de riso se estampou no rosto. Já estava na hora de amargar a boca novamente quando seu estômago esquentou e num movimento abrupto veio a necessidade de expelir o vômito da cura. Sua vontade era de voar, mas algo prendia suas asas nos pensamentos racionais que lhe vinham negar a experiência da mutação. Ao impedir sua força interior entrou em transe e passou a ter densas visões de animais e insetos que nunca havia visto na vida racional, todos os que passavam por perto possuíam olhos, muitos olhos a olhar a ave que não tinha descoberto a maravilhosa liberdade plena por meio do voo. Outra vez sentiu o poder da cura e expeliu um viscoso vômito do pranto reprimido. Precisou de ajuda para se libertar das garras do perigo em meio aos calafrios e tremores de seu corpo, logo ouviu uma voz apaziguadora e solícita aos seus suspiros temerosos. Essa mão auxiliadora foi ao seu encontro, despertando sua alma do distante sono de embriaguez que aos poucos voltava para luz. Logo veio a aurora boreal e pigmentos violetas despontaram por entre todos os irmãos. Deitou-se e percebeu que seus sentidos humanos retornavam e muito tempo se passou até que sentisse o habitual calor em suas pernas. Regressou de sua viagem e permaneceu meditando no entorpecimento e em tudo o que havia acontecido por meio do cálice de poder.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Intangível crisálida


           Lá fora já não pertence mais aos prisioneiros. Na condição de sua inatividade, a discreta casa é muito admirada pela resistência, porém é demasiadamente incômodo permanecer em suas dependências. Um estágio de desenvolvimento que talvez seja compreensível, se bem que a reclusão quase não faz bem para ninguém, mas no caso das mariposas e borboletas é diferente, por ser uma mudança radical em suas vidas. Passar do rastejo para o voo é sem sombra de dúvidas um mérito louvável. Quem sabe um casulo obsoleto possa ter o mesmo fado de concluir a incrível metamorfose e acordar batendo asas, libertando-se de todos os invólucros medonhos da terrível e mimada vontade de cair em prantos.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sagrado júbilo


Idas e vindas,
Permanência satisfatória.
Anjos alados na mesma sincronia,
Gotas sem cores sobre a face da alegria.

Amor que irrompe,
Transborda em claras águas.
Enobrece sentimentos mútuos
Derrama e encharca.

Nas veias de antigas mágoas
Serpenteiam sangue de novas sagas,
Intenções, novos sonhos e caminhos,
Por onde percorrem sorrisos contínuos.

Dos suspiros de liberdade,
Sorriem tão felizes que são.
Passeios distintos de confiança,
Adiam um combate vão.

Lágrimas traduzem canções
De puro contentamento e entusiasmo,
Regozijo e exultação dessa imensa alegria.
Pois ter um ao outro é não ter ninguém.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Articulação engessada


          Portão afora, caminhei pelo asfalto feito para rolagem de inúmeros pneus. O vento não era congelante como deve ser em lugares de temperaturas extremamente baixas, mas estava frio o bastante para deixar a face gelada. Garoava um pouco e atravessar a rua foi uma das tarefas mais fáceis pela manhã. A dificuldade começou depois que os compartimentos articulados chegaram na parada que é a segunda mais próxima da casa onde moro. Portas adentro, logo percebi que seria uma manhã difícil por terem muitas pessoas amontoadas atrás da catraca, o que me fez desistir de tentar passar para o outro lado. Ligeiramente me encostei no lugar onde abrigaria uma cadeira de rodas, sim, para minha sorte era um ônibus de piso baixo. Saberão porque tive sorte assim que perceberem o motivo desse post. Desagasalhei um livro, maravilhoso por sinal, e continuei a leitura que já avançava para a metade. Conforme o veículo andava, a articulação se enchia e ficava cada vez mais difícil se locomover. Depois de quase uma hora, agasalhei de volta o livro querido, pois faltavam dois pontos para chegar na parada em que eu desceria naquele dia. Fiz um verdadeiro contorcionismo para chegar até a catraca. Nesse momento, percebi que pessoas são como o gesso, petrificadas e não flexíveis o bastante para colaborar. Consegui atravessar a catraca, mas o gesso na minha frente se solidificou de uma maneira que tive de ser forte para quebrá-lo, no bom sentido, claro. Porém, abaixo do gesso havia uma armadilha. Meu pé enganchou em uma mochila jogada no chão e fui parar no gélido concreto da calçada, ferindo o joelho que já não é dos melhores, mas passo bem, obrigada! Apenas fico profundamente triste por saber que pessoas, principalmente as desprovidas de educação e noção, são como um frágil pedaço de gesso.