Com a voz e o comportamento
infantis, ela aparentava ter 60 anos, ou mais. Falava alto e a falta de alguns
dentes fazia com que as palavras tivessem um leve chiado ao final. Olhando pela
janela, notou o rio e os prédios e fez a seguinte observação: “- Se não tirarem
os prédios de lá, eles vão cair tudo no rio”. Encantava-se com a quantidade de
pessoas, com o sinal de aviso das portas, com o pato nadando no rio poluído e
com o menino que não tinha barba no rosto. Perguntou se ele tinha namorada. Com
a negação, ela disse: “- Isso mesmo tem de estudar muito, estuda, viu?”.
Balançava para frente e para trás. Disse com orgulho que não bebia e nem
fumava. Recebeu o elogio de “anjo, é um anjinho” e um afável carinho na cabeça
de sua cuidadora. Conversavam o tempo todo, sorriam e trocavam beijos no rosto.
Desinibida, o anjo passou a falar com uma passageira, disse que completou 51
anos mês passado e que “teve problema”, apontando para a cabeça. Elas ensinam
muito com pouco tempo por perto. Eu não senti a presença de um anjo, mas de
dois.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
domingo, 10 de janeiro de 2016
Feliz Stradivarius

FreeImages.com
Com excelência de qualidade,
poucas são as unidades que emitem som impecável. Obra das mãos de um luthier que esculpe
e modela com perfeição. Entre seus feitos estão as melhores madeiras, as
melhores cordas, as melhores medidas... Um instrumento para propagar a paz, o
amor e eternizar momentos de união. Vibrações de uma harmonia de graça e
tranquilidade para ouvidos sedentos de esmero. Raridades são assim. E, em
réplicas, compartilha pequenas demonstrações do que se conhece como arte musical. Um Stradivarius não é de se jogar fora, muito menos perdê-lo, ou deixá-lo empoeirado. Sua caixa de ressonância clama por vida própria e sobre suas cordas o arco repousa em uma combinação perfeita da sintonia de dois corpos.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
Bola de fogo
Aquece almas.
E chega intensa para
despertar,
Para alegrar,
Os dias quentes dessa
estação.
Despontam agora em dezembro,
Os chamados dias de verão.
Governa nossos dias,
SOLte os raios de seus
incêndios benéficos,
Com explosão de vitaminas em
melaninas.
Celebramos esse dia de Sol
e outros que virão.
Lamentamos apenas por nossa
Luz Estação,
Pelas labaredas em nosso
Museu,
Pelas cinzas nossas Da Língua,
Por nossa essência Portuguesa,
Outrora iluminada sem o
calor das chamas.
Que as chuvas nos lavem,
Que as lágrimas nos
consolem,
Que seu brilho seja, por
inteiro, restaurado,
E seus acervos preservados.
Que a Bola de fogo venha
apenas purificar,
Clarear nossas vidas com sua
luz natural.
Que nossos extintores sejam
carregados,
E os incêndios maléficos erradicados.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
Vitimização
Expõe-se na vitrine em vão brado de sofrimento efêmero.
Faz-se de vítima, mas pouco é seu público.
Afirma sentimento que tem como amor, clamando súplicas por
sua própria escolha.
Embebido de ironia, máscaras caem e após assumida confusão,
exalta consolos alheios dos protagonistas da discórdia.
Em nome de Deus se diz no inferno e lamenta iniciativa de
outrem por suas supostas dores.
Demolindo torres de virtude, estilhaçando vitrais de
memórias, rompendo pontes de conexão, excede na exposição e se coloca no centro para ser
ovacionado pelo cretinismo dos seus.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Cor-Ação
Ainda não é Carnaval
Mas a carne pulsa e pula
Se joga, se enerva
Sangue emana pelas veias
Vivifica o templo sagrado
O órgão pulsante desperta
Espanta, salienta o recinto
Bate pratos e tamborins
Apita agudamente e sacode
pandeiros
Ensurdece, emudece e cala
A euforia vai embora
A quietude se renova
Sussurrando traz conforto,
Soma, divide, sonha e cede
Carne que treme, que congela e
que aquece
Dos batuques desse pedaço
arrebatador
Dessa bombinha que cresceu
Que provoca maravilhas e grandes
estragos.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Marilama
Como porcos fomos banhados, arrastados e lavagem nos restou como alimento. Nossa água jaz tóxica e para o abatedouro fomos fadados. Nossa carne cheira mal e nossa família sangra na terra de sobreviventes. Somos apenas números da infeliz estatística de mais um 'acidente' e nossa desventura será em breve esquecida. Entrego-me ao barro e meu suspiro já é de Deus.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Telão de pálpebras
É noite e chega a hora do ritual diário de descanso, após um banho relaxante horizontalizar o corpo depois de mais um dia repleto de tarefas.
Para assistir o melhor longa-metragem de todos os tempos, basta cobrir os olhos com as delicadas e flexíveis pálpebras. A apresentação pode ser um misto de momentos vividos durante o dia, ou lembranças do passado combinadas ao presente e ao futuro. Alguns não podem ser compreendidos muito bem, outros são cheios de símbolos, mas os melhores são os que ficam na memória, mesmo que fragmentados, expressam conexão com algo que está realmente acontecendo, ou que já aconteceu. Esses são os melhores. Trazem inspiração. Permitem novas descobertas. Quando se está dormindo, neles tudo é possível: voar, cair sem se machucar, rir, matar, morrer, chorar.... Enquanto despertos, ele vive a cada dia, algumas vezes é intenso demais e se alimenta de esperança. É responsável por manter muita gente viva, por meio de uma chama vibrante que emana energia a cada pensamento de positividade concentrado nele. Não custa um centavo e alimenta a alma com a certeza de um dia ser realizado. Ah... sonhar!
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