terça-feira, 12 de junho de 2012

Nota do tempo de um voo contido


          O cálice das verdades interiores molhou sua garganta e amargou toda sua boca. Com os olhos fechados seu corpo derretia no calor e caía aos pedaços. As narinas cada vez mais irritadas não suportavam a entrada de tanto ar. Mãos e costas encolhidas e um choro inconsolável tomaram o seu ser. Os dentes doloridos já não faziam mais parte daquela boca e as pernas estavam submersas na intensa frieza das águas. Seu ninho era frio e lhe fazia tremer toda a carne, inexplicavelmente já perdera todos os sentidos humanos, passando a escutar como aves e se perturbar com todo e qualquer ruído que chegasse aos seus sensíveis ouvidos. Suas penas ainda pequenas estavam molhadas e uma breve crise de riso se estampou no rosto. Já estava na hora de amargar a boca novamente quando seu estômago esquentou e num movimento abrupto veio a necessidade de expelir o vômito da cura. Sua vontade era de voar, mas algo prendia suas asas nos pensamentos racionais que lhe vinham negar a experiência da mutação. Ao impedir sua força interior entrou em transe e passou a ter densas visões de animais e insetos que nunca havia visto na vida racional, todos os que passavam por perto possuíam olhos, muitos olhos a olhar a ave que não tinha descoberto a maravilhosa liberdade plena por meio do voo. Outra vez sentiu o poder da cura e expeliu um viscoso vômito do pranto reprimido. Precisou de ajuda para se libertar das garras do perigo em meio aos calafrios e tremores de seu corpo, logo ouviu uma voz apaziguadora e solícita aos seus suspiros temerosos. Essa mão auxiliadora foi ao seu encontro, despertando sua alma do distante sono de embriaguez que aos poucos voltava para luz. Logo veio a aurora boreal e pigmentos violetas despontaram por entre todos os irmãos. Deitou-se e percebeu que seus sentidos humanos retornavam e muito tempo se passou até que sentisse o habitual calor em suas pernas. Regressou de sua viagem e permaneceu meditando no entorpecimento e em tudo o que havia acontecido por meio do cálice de poder.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Intangível crisálida


           Lá fora já não pertence mais aos prisioneiros. Na condição de sua inatividade, a discreta casa é muito admirada pela resistência, porém é demasiadamente incômodo permanecer em suas dependências. Um estágio de desenvolvimento que talvez seja compreensível, se bem que a reclusão quase não faz bem para ninguém, mas no caso das mariposas e borboletas é diferente, por ser uma mudança radical em suas vidas. Passar do rastejo para o voo é sem sombra de dúvidas um mérito louvável. Quem sabe um casulo obsoleto possa ter o mesmo fado de concluir a incrível metamorfose e acordar batendo asas, libertando-se de todos os invólucros medonhos da terrível e mimada vontade de cair em prantos.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sagrado júbilo


Idas e vindas,
Permanência satisfatória.
Anjos alados na mesma sincronia,
Gotas sem cores sobre a face da alegria.

Amor que irrompe,
Transborda em claras águas.
Enobrece sentimentos mútuos
Derrama e encharca.

Nas veias de antigas mágoas
Serpenteiam sangue de novas sagas,
Intenções, novos sonhos e caminhos,
Por onde percorrem sorrisos contínuos.

Dos suspiros de liberdade,
Sorriem tão felizes que são.
Passeios distintos de confiança,
Adiam um combate vão.

Lágrimas traduzem canções
De puro contentamento e entusiasmo,
Regozijo e exultação dessa imensa alegria.
Pois ter um ao outro é não ter ninguém.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Articulação engessada


          Portão afora, caminhei pelo asfalto feito para rolagem de inúmeros pneus. O vento não era congelante como deve ser em lugares de temperaturas extremamente baixas, mas estava frio o bastante para deixar a face gelada. Garoava um pouco e atravessar a rua foi uma das tarefas mais fáceis pela manhã. A dificuldade começou depois que os compartimentos articulados chegaram na parada que é a segunda mais próxima da casa onde moro. Portas adentro, logo percebi que seria uma manhã difícil por terem muitas pessoas amontoadas atrás da catraca, o que me fez desistir de tentar passar para o outro lado. Ligeiramente me encostei no lugar onde abrigaria uma cadeira de rodas, sim, para minha sorte era um ônibus de piso baixo. Saberão porque tive sorte assim que perceberem o motivo desse post. Desagasalhei um livro, maravilhoso por sinal, e continuei a leitura que já avançava para a metade. Conforme o veículo andava, a articulação se enchia e ficava cada vez mais difícil se locomover. Depois de quase uma hora, agasalhei de volta o livro querido, pois faltavam dois pontos para chegar na parada em que eu desceria naquele dia. Fiz um verdadeiro contorcionismo para chegar até a catraca. Nesse momento, percebi que pessoas são como o gesso, petrificadas e não flexíveis o bastante para colaborar. Consegui atravessar a catraca, mas o gesso na minha frente se solidificou de uma maneira que tive de ser forte para quebrá-lo, no bom sentido, claro. Porém, abaixo do gesso havia uma armadilha. Meu pé enganchou em uma mochila jogada no chão e fui parar no gélido concreto da calçada, ferindo o joelho que já não é dos melhores, mas passo bem, obrigada! Apenas fico profundamente triste por saber que pessoas, principalmente as desprovidas de educação e noção, são como um frágil pedaço de gesso.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Marias mijonas

           Quase sempre choronas se desesperam por pequenas coisas, sujeitam-se a cada situação e sem a capacidade de exercerem uma simples opinião respondem um “tanto faz” a qualquer questionamento. Borram-se de medo dos metidos a machões e padecem em silêncio. Amedrontadas se calam diante da própria reputação e escondem suas marcas da vergonha alheia. Exibem traços de meninas indefesas e totalmente dependentes que não são. A realidade é que os covardes agressores dependem mais delas do que elas deles. Cegamente subordinadas, obedecem e não ousam denunciar os maus tratos, seja pelo medo de ameaças, seja pela falsa esperança de que o autor um dia cumpra o que prometeu, de que o ocorrido não irá mais se repetir... Sem fraldas e na miséria, marias mijonas arrastam a vida em sigilo. No secreto de seus rostos sofridos aparentam mais idade do que, de fato, possuem.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Ermo interior

Caminhei por cima das pedras e feri meus pés. Tive pensamentos ruins e proferi palavras das quais não ouso mencionar aqui. Acenei, mas não me viram. Chamei pessoas pelo nome e nenhuma delas me ouviu. Veio-me o desespero e chorei soluços de muitas impressões fiéis do meu espírito moribundo. Prossegui como se âncoras acorrentassem o resto de vontade que o meu corpo tinha de continuar. Abandonei o barco. Afoguei meus sonhos. Inconsciente, sonhei com a vida que reclamava. O agora me assola tanto quanto mereço pagar por meus murmúrios. Perdi o carisma e afastei de mim os que eu menos queria. Joguei para longe a razão e parti em pedaços o meu próprio coração, sem eira nem beira. Os reflexos da minha mente pouco se fazem nítidos e em mim habita a solidão. Mamãe, você é minha casa!

terça-feira, 6 de março de 2012

Saber tudo é não saber

          Isso não é nenhuma descoberta, mas as impressões de uma incongruência do comportamento humano. Não saber tudo é saber que tudo o que se sabe fez você saber tudo o que até hoje precisou saber. Os passeios dos sorrisos pelas ruas, ou mesmo a queda da lua na extensão noturna. Os caminhos dos corações das longínquas relações, ou também a ausência de um vazio que só lhe trouxe frio. Os resquícios do amor que foi transmitido, assim como as flores que desabrocharam colorindo amores e dores em dias especiais. Tantas outras coisas encorpam o saber e desmistificam seu real significado, por isso lhe peço um favor! Quando souber quando o saber esteve tão certo, avise-me para eu procurar não mais sabê-lo.