Cantava afinado e alegre. Alternava com assobios, dirigia com pressa para chegar ao destino. Queria se refrescar e deixar a grande circunferência que calejava suas mãos em mais um dia quente. A canção que entoava lembrava as regiões agrestes, a caatinga nordestina. De pés descalços na terra distante dos centros urbanos... Um choro com saudades do sertão. Pelo reflexo dos óculos escuros, deitada sobre um colo amoroso, via os postes e fios elétricos, as árvores apressadas, tudo ficando para trás abaixo de um limpo azul celeste de poucas nuvens. Naquele calor escaldante e desidratante, uma música contagiou meu estado de espírito. Em um momento que eu mais ouvia, por não poder falar.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Ócio
Tão ausente quando precisamos dele.
Tão eficaz para promover textos como este.
Tão cruel quando preferimos o contrário.
Tão injusto quando se tem tanto para fazer.
Tão capaz de provocar a discórdia.
Tão oportuno se usado para o mal.
Tão confuso quanto não fazer nada com ele...
Tão presente quando não queremos ele.
Tão eficaz para promover textos como este.
Tão cruel quando preferimos o contrário.
Tão injusto quando se tem tanto para fazer.
Tão capaz de provocar a discórdia.
Tão oportuno se usado para o mal.
Tão confuso quanto não fazer nada com ele...
Ao ponto de saber e não poder fazer com ele o que se quer fazer.
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Nota do tempo de um jardim
Na ternura daquele carinho, transportou-se para um lugar seguro. Cuidadosamente foi depositada na cava funda de um abraço terreno. Regada por lágrimas de felicidade, brotou vida verde da seiva que germinava. Atravessou o escuro e respirou fundo incontáveis perfumes. Regada por lágrimas de felicidade do orvalho que a refresca, gotas escorrem por suas delicadas e pequenas pétalas. Adubada de amor, cresce e floresce iluminada por uma intensa e constante luz natural. Desabrocha em sinal de alegria. Uma brisa a faz dançar vagarosamente. Na colheita, espera fazer alguém feliz, mesmo que seja por pouco tempo.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Ponto preenchido
Mesmo com alguns lugares vagos, o homem sentou no chão do trem. Ao lado dele um lugar ocupado por uma mulher e o outro lugar totalmente livre. Curiosa essa atitude. Depois que a mulher levantou, ele sentou exatamente onde ela estava. Talvez fosse o lugar da sorte. O lugar em que sempre sentava. Ou apenas o lugar de preferência e nenhum outro lhe servia. Cada um tem o seu lugar, com nome, sem nome, há um lugar para cada um. Enquanto isso, alguns estão a vagar no limbo sem convicções de que o seu lugar ainda é o que antes era. Aquele lugar em que se sentia bem já não lhe enche mais os olhos. Noutro lugar, um com maior comodidade, parece ser o mais agradável. Embora não seja o lugar em que deveria estar, mas o que gostaria de ficar.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
A negligência do tic tac
No badalar de uma hora, o relógio corre e você atrás dele ou raramente na frente. No adiantar das horas, os acontecimentos passam por seu nariz sem que perceba a grande diferença entre os homens. O estranho comportamento no transporte coletivo em busca de algo que havia guardado embaixo de algum banco traseiro do ônibus. Em meio a frases soltas e o falar sozinho nas avenidas poluídas e pretas unhas de muito tempo sem saber o que é um banho. As isoladas noites no frio e de sonhos edificados no gelado concreto. Aquecido com o jornal que já não serve mais e as doses conquistadas com as míseras moedas de um dia infeliz explícito na face de um pobre ser privado de bens palpáveis e impalpáveis. Enquanto o precioso tempo passa, todas as forças daquele indivíduo se concentram na única e aparente saída: a sobrevivência. Distante da família que provavelmente teve, do tratamento que nitidamente necessitava e do aconchego que talvez tenha dispensado... Maltrapilho, ele estava perturbado com as vozes em sua cabeça, os ruídos provindos de quem só ele vê e ouve. Nas esquizofrenias da vida lamentável, aventura-se entre os carros pela rua, desafia o pingo de segurança que ainda possui já sem amor a vida, sem amor-próprio. As horas passam e ele nem sequer escuta o tic tac...
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Nota do tempo de um inverno
Nota dez significa boa coisa para os que buscam a perfeição. Dia dez ou décimo dia, um importante dia para comemorar o que foi cuidadosamente plantado, cultivado com todo amor e respeito, e hoje dá muitos frutos de felicidade. Taças apimentadas ganham a doçura da cereja e chocolate. Uma história e prova de amor que, caracterizada em filme, faz lágrimas rolarem. Pequenos presentes carregados de significados e o calor dos chocolates quentes aquecem abraços que levam para casa a inspiração para compor. Música na versão da noite, lembrança de um charango... Nos ‘shuimis’ de um frio de 7°C, o inverno se vai pela manhã, derrete-se com o sol. O astro-rei que se põe no vermelho céu aos finais de tarde e deixa o luar amarelado e deslumbrante como sempre, dando início a mais uma noite fria, uma noite de inverno.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Trace sua face
As várias faces do homem denunciam o seu estado de espírito. Ora exaurida, ora cansada, ora abatida. Na rua estão presentes expressões da tristeza, da indiferença e da fome. Enrugadas peles outrora macias e cuidadas. Sorrisos tímidos exprimidos atrás dos fones de ouvidos. Óculos pesados nos narizes machucados. Pés de galinhas expostos perto dos brancos cabelos na sombra dos olhos. Poros suados de um dia aterefado, enfadonho e necessário. Narinas incomodadas com a inalação precária da poluição insolúvel de vaidade contrária ao estar bem. Porque sois um no meio de muitos, no meio de todos, no meio de uns tantos com faces terrivelmente ferozes. Faces revoltadas, talvez despeitadas. Que o seu semblante não te roube o real reflexo da sua verdadeira face. Arranque qualquer máscara que cubra o teu rosto. Deixe a sua “face oculta” no recôndito da memória mais falha. Pois a hipocrisia beira uma face, portanto, dispense a segunda.
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