segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sagrado júbilo


Idas e vindas,
Permanência satisfatória.
Anjos alados na mesma sincronia,
Gotas sem cores sobre a face da alegria.

Amor que irrompe,
Transborda em claras águas.
Enobrece sentimentos mútuos
Derrama e encharca.

Nas veias de antigas mágoas
Serpenteiam sangue de novas sagas,
Intenções, novos sonhos e caminhos,
Por onde percorrem sorrisos contínuos.

Dos suspiros de liberdade,
Sorriem tão felizes que são.
Passeios distintos de confiança,
Adiam um combate vão.

Lágrimas traduzem canções
De puro contentamento e entusiasmo,
Regozijo e exultação dessa imensa alegria.
Pois ter um ao outro é não ter ninguém.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Articulação engessada


          Portão afora, caminhei pelo asfalto feito para rolagem de inúmeros pneus. O vento não era congelante como deve ser em lugares de temperaturas extremamente baixas, mas estava frio o bastante para deixar a face gelada. Garoava um pouco e atravessar a rua foi uma das tarefas mais fáceis pela manhã. A dificuldade começou depois que os compartimentos articulados chegaram na parada que é a segunda mais próxima da casa onde moro. Portas adentro, logo percebi que seria uma manhã difícil por terem muitas pessoas amontoadas atrás da catraca, o que me fez desistir de tentar passar para o outro lado. Ligeiramente me encostei no lugar onde abrigaria uma cadeira de rodas, sim, para minha sorte era um ônibus de piso baixo. Saberão porque tive sorte assim que perceberem o motivo desse post. Desagasalhei um livro, maravilhoso por sinal, e continuei a leitura que já avançava para a metade. Conforme o veículo andava, a articulação se enchia e ficava cada vez mais difícil se locomover. Depois de quase uma hora, agasalhei de volta o livro querido, pois faltavam dois pontos para chegar na parada em que eu desceria naquele dia. Fiz um verdadeiro contorcionismo para chegar até a catraca. Nesse momento, percebi que pessoas são como o gesso, petrificadas e não flexíveis o bastante para colaborar. Consegui atravessar a catraca, mas o gesso na minha frente se solidificou de uma maneira que tive de ser forte para quebrá-lo, no bom sentido, claro. Porém, abaixo do gesso havia uma armadilha. Meu pé enganchou em uma mochila jogada no chão e fui parar no gélido concreto da calçada, ferindo o joelho que já não é dos melhores, mas passo bem, obrigada! Apenas fico profundamente triste por saber que pessoas, principalmente as desprovidas de educação e noção, são como um frágil pedaço de gesso.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Marias mijonas

           Quase sempre choronas se desesperam por pequenas coisas, sujeitam-se a cada situação e sem a capacidade de exercerem uma simples opinião respondem um “tanto faz” a qualquer questionamento. Borram-se de medo dos metidos a machões e padecem em silêncio. Amedrontadas se calam diante da própria reputação e escondem suas marcas da vergonha alheia. Exibem traços de meninas indefesas e totalmente dependentes que não são. A realidade é que os covardes agressores dependem mais delas do que elas deles. Cegamente subordinadas, obedecem e não ousam denunciar os maus tratos, seja pelo medo de ameaças, seja pela falsa esperança de que o autor um dia cumpra o que prometeu, de que o ocorrido não irá mais se repetir... Sem fraldas e na miséria, marias mijonas arrastam a vida em sigilo. No secreto de seus rostos sofridos aparentam mais idade do que, de fato, possuem.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Ermo interior

Caminhei por cima das pedras e feri meus pés. Tive pensamentos ruins e proferi palavras das quais não ouso mencionar aqui. Acenei, mas não me viram. Chamei pessoas pelo nome e nenhuma delas me ouviu. Veio-me o desespero e chorei soluços de muitas impressões fiéis do meu espírito moribundo. Prossegui como se âncoras acorrentassem o resto de vontade que o meu corpo tinha de continuar. Abandonei o barco. Afoguei meus sonhos. Inconsciente, sonhei com a vida que reclamava. O agora me assola tanto quanto mereço pagar por meus murmúrios. Perdi o carisma e afastei de mim os que eu menos queria. Joguei para longe a razão e parti em pedaços o meu próprio coração, sem eira nem beira. Os reflexos da minha mente pouco se fazem nítidos e em mim habita a solidão. Mamãe, você é minha casa!

terça-feira, 6 de março de 2012

Saber tudo é não saber

          Isso não é nenhuma descoberta, mas as impressões de uma incongruência do comportamento humano. Não saber tudo é saber que tudo o que se sabe fez você saber tudo o que até hoje precisou saber. Os passeios dos sorrisos pelas ruas, ou mesmo a queda da lua na extensão noturna. Os caminhos dos corações das longínquas relações, ou também a ausência de um vazio que só lhe trouxe frio. Os resquícios do amor que foi transmitido, assim como as flores que desabrocharam colorindo amores e dores em dias especiais. Tantas outras coisas encorpam o saber e desmistificam seu real significado, por isso lhe peço um favor! Quando souber quando o saber esteve tão certo, avise-me para eu procurar não mais sabê-lo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Baseado em fatos e fotos reais

Os dias passam pelos olhos como se eles tirassem uma foto de cada momento. Imagens ficam registradas, fixando que o presente jaz no passado. Histórias de alguéns que viraram filmes a partir de alguns relatos da curiosa rotina de um diário pessoal. Histórias de entorpecimentos que começaram pela base, queimaram a essência e consumiram uma visão já turva da vida e do mundo. Caídas na real, trazem cor ao rosto pálido e revigoram o corpo fatigado. A quase morte beira o pó da terra por inalar o pó químico das alegrias momentâneas, das brisas inconstantes, dos centavos perdidos em dívidas inimigas, de muito penar e não encontrar o próprio eu. Sem estabelecer uma autorreflexão, desconhece o significado da palavra amigo e vaga tão só na carência escondida no refletir de sua própria face. Outros da mesma espécie os preconceituam marginais.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Sinfonia das águas

          
                Num aperto intencional a armação se abriu e esticou a lona dobrável e impermeável no alta da cabeça. Logo se podia ouvir o som dos pingos com a queda interrompida na tenda que livrava quase todo o corpo da chuva. Rapidamente batiam na superfície e escorriam pela curva chão abaixo. Unidos no solo sem absorção formavam poças a cada desnível da rua e calçada. Os veículos transitavam velozmente e os sulcos dos pneus levantavam jatos de gotículas como uma breve neblina. Os 'splashs', os 'chuás', os 'tecs tecs' e 'shshshshshs' não deram trégua e são impressionantemente músicos destes dias chuvosos. O próximo aperto fez a lona dobrar e escorrer o excesso de água na sacolinha plástica, interrompendo a viagem agradável debaixo da queda das águas.