Sorrir sempre. Colocar um sorriso no rosto das pessoas, foi pra isso que você veio ao mundo? Os nossos próprios demônios já são difíceis demais de lidar, nossos traumas, nossas crenças, os desígnios que são traçados para nós por terceiros ditam nosso comportamento doentio. Desatinados, acumulamos inconscientemente os desejos mais perversos, as vontades mais primitivas que quando expressas despertam a loucura, causam estranheza. As circunstâncias do labor, a exigência pela agradabilidade das nossas atitudes, ser piada sem se fazer piada, nossos corpos são reduzidos a sacos de pancada. Os que fingem que se importam estão ocupados demais e os que não se importam fazem questão de deixar evidente todas as nossas faltas, até aquelas sobre as quais nunca falamos. Afinal, apontar o dedo, desnudar o outro, é o maior gesto de opressão. E esse é o momento em que preciso discordar do meu amigo Coringa: a vida não é um drama, a vida não é uma comédia, a vida, meus caros, é insana.
quinta-feira, 17 de outubro de 2019
segunda-feira, 12 de agosto de 2019
Nota do tempo de uma mania
Ana tem mania
de enrolar os seus cabelos
De passá-la nos lábios
de enrolar os seus cabelos
De separar uma mecha
e senti-la entre os dedos
De passá-la nos lábios
e conferir a maciez
Enrola e desenrola
para enrolar outra vez
Enrola e desenrola
segunda-feira, 11 de junho de 2018
Contente imersão
freepik
A água desliza pelas linhas perfeitamente esculpidas daquele corpo ensaboado, dilata os poros e purifica a pele, liberando fragrâncias de ervas e plantas, de frutas e sais, de memórias adormecidas. Desperta a alma para as sensações de relaxamento, frescor e alívio. A leveza facilmente obtida ao ver que o fardo escorre pelo ralo. Um intenso vapor embaça o revelador da silhueta envolvida no tecido atoalhado e macio. Coração transborda e a circulação ferve alegria. Respiração profunda e um sorriso.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
Desarranjo
FreeImages.com/Arquivo Pessoal
Quase sempre é atribuído aos
problemas enfrentados por um determinado período da vida, já para os céticos basta
a curiosidade. Funciona como os populares intitulam de “válvula de escape”. O
portador permite algum tipo de dependência que pode ser física, psicológica, ou
as duas juntas. Para manifestação dessas é necessário o uso de uma substância
ou realização de alguma prática. A maioria tem, mas a minoria reconhece que tem
e menos da metade da minoria procura por ajuda, isto é, uma mão amiga para obter
livramento do que resultou a motivação de “escapar” daquilo que não se
conseguiu administrar levando ao “aprisionamento” por ingestão, aspiração,
inalação, aplicação, ou execução frequente de uma ação por ligeiros momentos de
êxtase e despreocupação com a situação inicial. Quando o “escape” se torna “um
tiro pela culatra”, encontra-se o “fundo do poço”, onde a submissão é total. O único jeito é gritar por socorro e, na melhor das hipóteses, se alguém ouvir,
pedir-lhe que lance o balde. E a partir daí viver lutando constantemente com os
resquícios, aparentemente inofensivos, daqueles vícios.
domingo, 22 de outubro de 2017
Drenador de pujança
FreeImages.com
A força vital é alvo constante de
parasitas, por sua intensidade e potência. É um
artifício bastante comum obter vigor alheio, inclusive de vítimas próximas. O preguiçoso
não almeja realização pessoal, culpa terceiros por qualquer tipo de fracasso vivenciado
e se faz hospedeiro de indivíduos com extrema vitalidade, talento, disposição, robustez, entusiasmo. Deposita esperança de um futuro melhor no mais
bem-sucedido, porque está desenganado demais para depositar
confiança em si próprio. Encontra-se incessantemente a paparicar aquele em quem
visualiza algum tipo de benefício, pois busca satisfazer o ruminar de
ressentimentos medonhos na intenção de manter viva e acessa a chama das vontades
que melhor sabe dominar: a de uma vida sem propósito e ingrata.
terça-feira, 18 de julho de 2017
De repente 30
Parece que foi mesmo de repente, mas o período de 30 anos tem muita história. São tantos planos, tantos sonhos, tantas expectativas que se passam e quando vamos ver, já ficou tudo para trás. E num balanço otimista, a vida adulta na visão de uma criança é libertadora e fantasiosa como um pozinho mágico, mas na verdade tem de muitas dores, dores profundas, que nos fazem querer um travesseiro fofo para abraçar e um rosto amigo da época de infância para nos fazer acalmar, relembrar do quanto éramos realmente felizes e não sabíamos. Porém, as dores nos fazem crescer como ser humano, nos tornam mais fortes. Talvez o sucesso seja ser editora de uma grande revista de moda, passando por cima de tudo e de todos, ter um namorado famoso, trair pessoas e mentir o tempo todo... talvez. Ou talvez, sucesso seja valorizar seus familiares, ser honesto em seu trabalho, mascar as balinhas doces da infância, amar alguém e ser correspondido(a) e se casar bem ali no quintal dos familiares para viver completamente feliz na sua casa dos sonhos.
terça-feira, 27 de junho de 2017
Nota do tempo de uma janela
Arquivo pessoal
A abertura na parede que transporta
para o jardim, para a avenida, para o lago, para o mar, para o bosque, para a
paisagem, ou para a falta dela. Traz as brisas, os ventos, as maravilhas e os
desalentos, é boa mesmo para iluminar e arejar, renova o ar. Sua utilidade é de
tamanha importância que doou seu nome até aos sistemas operacionais da indústria
da computação. A perspectiva não para por aí, na verdade é libertadora, porque
o amanhecer é sempre de sol redondo, que o nascer quadrado seja apenas uma
expressão ignóbil para os que não acreditam no amanhã como uma nova
oportunidade.
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